{"id":150,"date":"2010-06-28T19:52:20","date_gmt":"2010-06-28T22:52:20","guid":{"rendered":"http:\/\/mbelo.wordpress.com\/?p=150"},"modified":"2010-06-28T19:52:20","modified_gmt":"2010-06-28T22:52:20","slug":"convem-sonhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/2010\/06\/28\/convem-sonhar\/","title":{"rendered":"Conv\u00e9m Sonhar"},"content":{"rendered":"<h4><a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/economia\/miriam\/post.asp?t=convem_sonhar&amp;cod_Post=110934&amp;a=73\" target=\"_blank\">Conv\u00e9m sonhar<\/a><\/h4>\n<p>Por Miriam Leit\u00e3o<em> (coluna publicada no O Globo, 29\/6\/2008)<\/em><\/p>\n<p>Manez\u00e3o gostava  de brincadeiras brutas, agressivas. Um senso de  humor esquisito. Era o chefe de disciplina do col\u00e9gio. Ele entregou ao  mais franzino dos dois meninos pobres de Garanhuns, que entravam na  escola pela primeira vez, um balde e uma vassoura e disse: &#8220;Este \u00e9 seu  l\u00e1pis, este \u00e9 seu caderno!&#8221; Eles teriam que trabalhar na limpeza para  ter bolsa para estudar no renomado col\u00e9gio XV de Novembro.<\/p>\n<p>A m\u00e3e dos meninos tinha pedido bolsa aos diretores durante um  encontro na escola dominical, na Igreja Presbiteriana. Analfabeta,  extremamente pobre, queria que os filhos estudassem. Sonho antigo e  persistente. Foi por ele que decidiu sair de Recife e tentar a sorte no  interior do estado.<\/p>\n<p>\u2014  Vamos para Garanhuns que os meninos precisam estudar \u2014 disse ao  marido.<\/p>\n<p>Eram os  anos 20 do s\u00e9culo passado. O analfabetismo era dominante no  Nordeste; ela queria para os filhos outro destino. Bolsa, os diretores  americanos, que fundaram o col\u00e9gio, avisaram que n\u00e3o davam. Mas  aceitaram que dois deles estudassem de gra\u00e7a, se concordassem em  trabalhar no col\u00e9gio. O mais velho dos dois irm\u00e3os que ganharam a  bolsa-trabalho tinha 13 anos; o mais novo, 11. Anos depois, a fam\u00edlia  conseguiu que entrasse nesse grupo o ca\u00e7ula, ent\u00e3o com 7 anos.<\/p>\n<p>De tarde, eles varriam as salas e lavavam os banheiros. De madrugada,  espanavam as carteiras e mesas. Depois iam para a aula como todos os  alunos. A m\u00e3e orientava que s\u00f3 vestissem o uniforme ap\u00f3s terminada a  limpeza e depois que se limpassem no banheiro do col\u00e9gio. Ela sempre  entregava a eles uniformes limpinhos, que, \u00e0s vezes, secava no ferro  durante a noite. Nem sempre estavam bem alimentados.<\/p>\n<p>\u2014  Trabalh\u00e1vamos para estudar e ainda pass\u00e1vamos fome \u2014 relatou   recentemente o mais novo dos irm\u00e3os.<\/p>\n<p>Foram eternamente gratos \u00e0 oportunidade que receberam e retribu\u00edram  estudando muito. Os tr\u00eas foram alunos brilhantes, de pontuar nos  primeiros lugares, de queimar etapas com provas no estilo supletivo.<\/p>\n<p>Orientados pelos  diretores e professores do XV de Novembro,  continuaram seus estudos para al\u00e9m do gin\u00e1sio, al\u00e9m de Pernambuco. Os  tr\u00eas foram para o semin\u00e1rio presbiteriano em Campinas. O curso era  apertado, nota m\u00ednima 8. Estudava-se n\u00e3o apenas teologia. Sa\u00eda-se de l\u00e1  com v\u00e1rias licenciaturas, para o trabalho de professor do ensino m\u00e9dio.  No semin\u00e1rio, o menino que recebera de Manez\u00e3o o balde e a vassoura  tinha t\u00e3o bom desempenho, esfor\u00e7ava-se para falar portugu\u00eas t\u00e3o  irretoc\u00e1vel, que recebeu o apelido de &#8220;mulatinho pern\u00f3stico&#8221;.<\/p>\n<p>Ele dava de ombros, porque sabia dos seus sonhos e estava decidido a  realiz\u00e1-lo: sonhava dirigir um col\u00e9gio e, quando estivesse nesta  situa\u00e7\u00e3o de poder, dar bolsa a meninos pobres, como ele, que teriam  ent\u00e3o a chance que teve. Era isso que pedia nas ora\u00e7\u00f5es que costumava  fazer num morro de Garanhuns chamado Monte Sinai. Passava por l\u00e1 entre  um biscate e outro que fazia \u2014 de vendedor na feira a pintor \u2014 para  ajudar a renda baix\u00edssima e inst\u00e1vel da fam\u00edlia. O pai era pedreiro em  frente de obras, nem sempre tinha trabalho e renda.<\/p>\n<p>Quando se mudou, aos 28 anos, para o Vale do Rio Doce, fundou, em  Caratinga, junto com outros l\u00edderes locais, o primeiro gin\u00e1sio da  regi\u00e3o. Como diretor, fazia exatamente aquilo a que se prop\u00f4s na  adolesc\u00eancia: distribu\u00eda muita bolsa de estudo. N\u00e3o o fazia em troca de  trabalho. A alguns dos bolsistas mais velhos, muito pobres, tamb\u00e9m  ofereceu trabalho assalariado no col\u00e9gio.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas se dedicaram \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, os tr\u00eas se dedicaram \u00e0 igreja.  Dividiam-se entre as duas frentes de trabalho. Como acreditavam no  ensino laico, n\u00e3o misturavam as duas. Foram excelentes professores nas  escolas onde ensinaram. Foram brilhantes oradores nas igrejas.<\/p>\n<p>A f\u00e9 em Deus era inabal\u00e1vel, a paix\u00e3o laica que tiveram era a  educa\u00e7\u00e3o. O mais novo e o mais velho tamb\u00e9m fizeram Direito. Dos tr\u00eas, o  mais dedicado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o foi o do meio, exatamente o menino franzino  que tinha recebido o balde e a vassoura. Al\u00e9m do col\u00e9gio que fundou e  fez prosperar em cursos superiores, abriu escolas p\u00fablicas em outras  cidades, a pedido do governo do estado, na \u00e9poca da interioriza\u00e7\u00e3o do  ensino fundamental em Minas Gerais. Ele mesmo estudou a vida inteira,  como autodidata e leitor voraz, os mais variados assuntos: da filosofia \u00e0  f\u00edsica qu\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Tiveram sempre orgulho de terem trabalhado para conquistar o direito  de estudar num col\u00e9gio de excelente qualidade de ensino. Nunca se deram  conta de que trabalhar cedo demais era um absurdo. Achavam que foi uma  troca justa \u00e0 qual lhes coube corresponder. De Manez\u00e3o, vingaram-se  fazendo dele uma figura folcl\u00f3rica nas fam\u00edlias que constitu\u00edram.  &#8220;Brincadeira de Manez\u00e3o&#8221; passou a ser a express\u00e3o que designava a  atitude de humor grosseiro, da pessoa que agride, quando tenta brincar.<\/p>\n<p>O mais velho, Boanerges, morreu aos 62 anos. O mais novo, Nathanael,  est\u00e1 vivo e l\u00facido aos 85 anos. O do meio, o menino franzino, alvo da  brincadeira do Manez\u00e3o, \u00e9 Uriel, o meu pai. Ele morreu exatamente h\u00e1 10  anos, em 29 de junho de 1998. Quando estava velando seu corpo, um homem  se aproximou de mim e disse que tinha sido menino de rua at\u00e9 que meu pai  lhe deu bolsa no col\u00e9gio e no internato, e tinha virado juiz de  direito. Outro contou que trabalhava na ro\u00e7a, era analfabeto, at\u00e9 a  visita do meu pai. Passou a estudar e virou gerente de banco. Hist\u00f3rias  assim foram me enchendo de orgulho naquele dia dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Nathanael, meu tio, fez o serm\u00e3o do culto de a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as pela vida  dele. Ao lado do corpo do irm\u00e3o, come\u00e7ou dizendo: &#8220;Este homem sonhou.  Conv\u00e9m sonhar.&#8221;  Essa hist\u00f3ria sedimentou em mim a confian\u00e7a na for\u00e7a da  educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conv\u00e9m sonhar Por Miriam Leit\u00e3o (coluna publicada no O Globo, 29\/6\/2008) Manez\u00e3o gostava de brincadeiras brutas, agressivas. Um senso de humor esquisito. Era o chefe de disciplina do col\u00e9gio. Ele entregou ao mais franzino dos dois meninos pobres de Garanhuns, que entravam na escola pela primeira vez, um balde e uma vassoura e disse: &#8220;Este [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-150","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-educacao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=150"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/150\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=150"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=150"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marcio.belo.nom.br\/wordpress\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=150"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}